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10/09/2018
Futuro imprevisível: cientista político fala sobre cenário político e eleitoral

Paulo Kramer, doutor em ciência política, aborda relação do brasileiro com a política e papel do empresariado no atual momento do país

Foto: Arquivo pessoal


Doutor em ciência política pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), professor licenciado da UnB (Universidade de Brasília), autor de diversas publicações sobre política e comentarista do tema em programas de rádio e de televisão, Paulo Kramer não titubeia ao afirmar que o Brasil jamais viveu situação semelhante à de agora, de total indefinição e desesperança quanto ao futuro.

Exímio observador do cenário político brasileiro, Kramer diz, que existe, hoje, a interseção de duas crises profundas: a pior recessão econômica da história e uma crise ético-política sem precedentes. Segundo ele, o eleitor está perplexo e raivoso, e isso refletirá, de alguma forma, nas próximas eleições, que, além de serem as mais imprevisíveis desde a redemocratização, definirão se o país optará por sair da estagnação ou se agravará seu quadro socioeconômico. Confira a seguir os principais pontos da conversa.

Estamos a pouco menos de dois meses das, talvez, eleições mais difíceis do Brasil, mas o cenário ainda é nebuloso. A que o senhor atribui isso? 
O Brasil está vivendo na confluência de dois eventos muito graves. De um lado, a pior recessão econômica da história do país e, de outro, a exposição da sociedade a tantas informações e dados sobre os malfeitos da classe política e dos seus aliados nos negócios e na burocracia pública. O eleitor brasileiro está perplexo e raivoso.

Tal cenário pode gerar uma onda de pessoas totalmente descrentes com a classe política e, por isso, dispostas a não comparecer às urnas?
Estamos diante de índices exponenciais de pessoas que anularão o voto, votarão em branco ou se absterão. Na prática, o brasileiro já decretou o voto facultativo. As multas são de valor irrisório. As recentes eleições, fora de época, em Tocantins e no Amazonas, mostram o crescimento desse não voto, com 50% ou mais de eleitores nesse contexto. Pela série histórica do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o não voto foi de 25,6%, em 2006; de 26,76%, em 2010; e de quase 30%, nas últimas eleições presidenciais (2014). Isso mostra que esse é um fenômeno crescente e atesta essa alienação, esse estranhamento, do eleitorado em relação à classe política e, diria até mais, às instituições políticas e à própria política em si. 

Como o senhor avalia esse processo de “criminalização” da política?
Isso é muito ruim, já que o ser humano, há muito tempo, inventou a política como alternativa civilizatória, ou seja, em vez de as pessoas se matarem, elas tentam resolver pacificamente os seus conflitos de interesse. Ocorre que nosso sistema político sofre de um descompasso muito grande entre ele (seus usos, costumes, regras e atores), a sociedade e a economia, que mudaram muito rapidamente. O Brasil da década de 1950 para cá promoveu uma revolução urbana, com mais de 80% da população vivendo nas cidades. A sociedade mudou muito – e muito rápido –, e os políticos continuaram com velhos hábitos, velhos costumes. Agora, esse descompasso cobra o seu preço.

Nesse sentido, como o senhor enxerga atualmente a democracia representativa no Brasil?
Estamos perante uma nova sociedade que, hoje, conhece e opera poderosos canais de informação e de formação de opinião, que não existiam há pouco tempo. Isso, sem dúvida, impacta a política. Os políticos, de maneira geral, mesmo quando optam por novas formas de linguagem, o fazem conservando os velhos conteúdos formalistas. 

E como aproximar a classe política da sociedade?
O que estão faltando são líderes políticos e cívicos com credibilidade, que sejam influenciadores e ajudem no processo fundamental para a democracia funcionar, que é a formação do cidadão democrático. Ou seja, é necessário haver uma pessoa que procura se informar acerca da tomada das decisões das políticas públicas e das leis que impactam a sua vida. Isso é importante para que esse indivíduo não seja apenas um objeto passivo das decisões, mas, sim, um coparticipante e sujeito da sua própria história.

A partir desse cenário, qual é o prognóstico para o período eleitoral que se avizinha?
Impulsionado por dois vetores poderosos – a indignação ética e o desalento econômico –, o debate político nos últimos anos tendeu a uma polarização muito grande, com membros de família se desentendendo, amigos se estranhando. O impeachment foi o ponto alto dessa polarização. Isso gerou um cenário em que, nessas eleições, algumas regras de ouro do jogo político não valerão, como a história de que, se um candidato é muito rejeitado, com mais de 50% de rejeição, ele não conseguirá se eleger no segundo turno. Ocorre, porém, que essa alta rejeição, hoje, é generalizada. Então, haverá uma disputa entre dois candidatos altamente rejeitados, sejam eles quem forem. 

Diante disso, qual conselho o senhor oferece para o empresário brasileiro, em especial o do setor de transporte, fortemente impactado pela recessão econômica? Como investir na atual conjuntura e contribuir para o desenvolvimento do país?
Os empresários, a princípio, precisam lembrar que o Brasil, tal como conhecemos, existe desde 1500, e que as pessoas não deixarão de consumir bens necessários à sua sobrevivência e ao seu bem-estar – e esses bens precisam ser transportados. Em contrapartida, seria muito bom para o setor e para o país se os empresários resolvessem participar mais ativamente do processo de formação de opinião e de formulação das políticas, sobretudo as setoriais. Seria essencial um pacto empresarial pela ética na política, em defesa das instituições, contra a corrupção e voltado para o reconhecimento das grandes carências que o país tem em matéria de segurança pública, educação e saúde e, de alguma forma, a fim de contribuir com ideias e apresentar soluções viáveis para os problemas do país. 


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Diego Gomes
Agência CNT de Notícias