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07/11/2018
Empresas investem em diálogo para diminuir acidentes em linhas férreas

Dados da ANTT revelam que, só em 2017, ocorreram 694 acidentes em ferrovias em todo o país

Foto: VLI/Divulgação


​Quando a locomotiva Baroneza, em 1854, inaugurou os 18 km da estrada de ferro que ligava o porto de Estrela à Baía de Guanabara no estado do Rio de Janeiro, dava-se início à história do transporte sobre trilhos em um Brasil imperial que, na época, tinha quase 8 milhões de habitantes. Passados mais de 160 anos, o país hoje conta com uma malha ferroviária de 31 mil km, com mais de 100 mil vagões em tráfego diário que convivem dia a dia com 209 milhões de habitantes, viadutos, prédios, ocupações irregulares e problemas sociais que afetam o mundo moderno. 

Todo esse contexto geográfico e demográfico no qual os trilhos ficaram confinados trouxe não só desenvolvimento mas também os acidentes. De acordo com números da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), em 2017, ocorreram 694 acidentes nas linhas férreas brasileiras. Dados da Rumo, empresa que detém a maior malha do país, com mais de 12 mil quilômetros de trilhos, mil locomotivas e 25 mil vagões, mostram que, no comparativo entre o primeiro semestre de 2015 com os seis primeiros meses de 2018, houve um aumento de 37,6% no número de acidentes causados por terceiros, como atropelamentos e abalroamentos. 
 
A coordenadora de comunicação e engajamento da Rumo, Carmen Maron, cita que grande parte das ocorrências é ocasionada por motoristas e pedestres que não respeitam a sinalização e tentam atravessar a ferrovia no momento em que o trem se aproxima. “Para mitigar essas situações, a empresa trabalha frequentemente com campanhas de segurança, envolvendo escolas e comunidades próximas à linha férrea que administra. Informações sobre segurança são divulgadas constantemente nas redes sociais. Somente em 2017 mais de 600 mil pessoas foram alcançadas em iniciativas sobre o tema.”

No Brasil, há mais de 12 mil passagens em nível (cruzamento de uma via rodoviária e uma linha férrea), sendo que 2.659 são consideradas críticas, de acordo com números do boletim estatístico da CNT (Confederação Nacional do Transporte). Conforme o CTB (Código de Trânsito Brasileiro), deixar de parar o veículo antes de transpor linha férrea é infração gravíssima (sete pontos na CNH), além de gerar multa como penalidade. As concessionárias devem atuar em conformidade com orientações da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) sobre a utilização de dispositivos que colaborem para a segurança da operação. 

De acordo com o Regulamento dos Transportes Ferroviários, em vigor desde 1996, a responsabilidade de sinalizar as passagens em nível é da via mais recente. Nesse caso, se o município é mais novo que a linha férrea, a obrigação seria dele. Entretanto, a ANTT entende que há responsabilidade compartilhada entre as concessionárias, os municípios, os Estados e a União. 

Por outro lado, outras empresas estão conseguindo diminuir o número de acidentes em linhas férreas. É o exemplo da MRS Logística – concessionária que opera a malha regional sudeste –, que mostra, em seus números do primeiro semestre de 2018, uma queda de 3,5% no número de acidentes em relação ao mesmo período do ano passado em suas linhas. Novamente, a maior parcela dos casos se deve à imprudência, à desatenção e à impaciência, explica o gerente-geral de comunicação da empresa Marcelo Kanhan, o qual frisa ainda que, por mais que as empresas se previnam, a maior parte das ocorrências tem relação com aspectos comportamentais. 

“É muito difícil acontecer acidentes com falhas operacionais, pois a operação é muito controlada. Em caso de atropelamentos, 70% dos acidentes têm o componente de álcool. No caso dos abalroamentos, há a velha imprudência de não esperar o trem passar. O trem tem preferência, pois sua frenagem é muito difícil. Mesmo após o maquinista acionar o freio, o trem pode se deslocar por até um quilômetro até parar. Se o motorista não parar e olhar para os dois lados, é muito difícil evitar o acidente em uma ação de imprudência do motorista”, finaliza.

Mesmo que as empresas façam todo o seu trabalho junto à comunidade e também mantenham todos os procedimentos de segurança, outros fatores sociais estão presentes na questão dos acidentes. O médico especialista de tráfego e vice-presidente da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego) José Heveraldo da Costa cita que, entre os fatores humanos que a medicina tem observado sobre a questão de acidentes no transporte sobre trilhos, está o suicídio. 

“Não temos números exatos no Brasil, mas, na Suécia, já se trabalha com um número em torno de 10% de suicídios como causa de acidentes nas linhas férreas. Esse é um tema difícil, pois pode incentivar outros a fazerem a mesma coisa, e é preciso um trabalho conjunto entre as empresas e o poder público.”







Carlos Teixeira
Agência CNT de Notícias