A CNT (Confederação Nacional do Transporte) promoveu, na quinta-feira (11), palestra sobre a análise conjuntural econômica no Brasil e no mundo. O cenário macroeconômico foi apresentado pelo especialista em economia internacional e mercado financeiro Luís Suzigan. No âmbito global, a abordagem incluiu o crescimento econômico dos países desenvolvidos, o comportamento da inflação e aspectos geopolíticos no médio prazo. Sobre o contexto nacional, Suzigan considerou a dinâmica de inflação e juros, as perspectivas de crescimento econômico e as incertezas envoltas no cenário macroeconômico e político brasileiro.

“O risco inflacionário é o tema mais quente nos mercados globais e noticiários mundiais”, ressaltou. O especialista acrescentou que todo esse panorama pode influenciar a redução do estímulo monetário e um possível aumento dos juros internacionais, o que afeta países emergentes, como o Brasil. 

Levando em conta um cenário em médio prazo, há questões relacionadas aos desdobramentos em decorrência dos ciclos políticos, em especial às mudanças na China a partir de 2023, e os riscos geopolíticos associados a esses fatores. “O que está acontecendo agora e deve seguir por mais uma década é uma realocação de cadeias de suprimentos”, destacou.

Para o especialista, a preocupação das economias dos diversos países é com a inflação. “São níveis de inflação de dois dígitos que não eram vistos desde a década de 1970 e 1980, nos Estados Unidos”, exemplifica. 

Essa trajetória inflacionária já é observada no Brasil e tem sido respondida principalmente com o aumento da taxa Selic. Pelos cálculos de Suzigan, a média dos juros deve voltar para um patamar mais próximo dos 6% no final do próximo ano, percentual em que estava entre 2010 e 2011. “O país tem liderado essa alta na América Latina. A normalização de políticas monetárias já começa a ocorrer também na Inglaterra e no Canadá”, apontou.

Outro ponto destacado pelo economista foram os desafios climáticos. “Acompanhamos a COP26 (26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), que ocorreu em Glasgow, na Escócia. “É o momento para colocar uma visão sobre o que há de risco e oportunidade para o Brasil”, mostrou.

As metas mundiais que visam energias mais limpas têm sua parcela de peso na inflação. “Vários países estão buscando fazer essa transição. Isso tem custo e mantém a inflação pressionada”, enfatizou. Suzigan acredita que os riscos de recessão no Brasil são limitados. Ele lembra que fatores sazonais, como a seca, contribuem para que a inflação fique mais alta e causam repercussão nos alimentos e energia. “Isso pode influenciar em alguns setores, e o transporte é um deles”, alertou.

A seguir, algumas das perguntas respondidas por Luís Suzigan, durante a palestra promovida pela CNT

O transporte tem enfrentado duas questões que impactam economicamente o setor: o congestionamento logístico e a crise hídrica. Existe alguma perspectiva de superação desse cenário no curto ou médio prazos?

O congestionamento logístico pode se resolver em duas questões. Primeiro, com o fim da pandemia e o pleno funcionamento de vários portos e modais que trabalham sob restrições, principalmente na China e na Ásia. A outra questão é a regularização de insumos. A falta de peças afetou alguns setores, mas a oferta vai, gradativamente, ser restabelecida. Já o fator energético é mais complicado de ser solucionado. Embora seja sazonal, a trajetória climática tem sido adversa. Os extremos climáticos prejudicam o transporte. Por exemplo, altas temperaturas influenciam na qualidade do asfalto das rodovias e esses problemas vão ficar cada vez mais frequentes. O setor precisa repensar a matriz energética. Esse é um ponto de destaque para médio e longo prazos.

Como o segmento do transporte rodoviário urbano de passageiros, um dos mais afetados pela crise sanitária, pode sofrer menos impacto, tendo em vista questões como o aumento do preço do diesel e a correção salarial?

No curto prazo é complexo. A transição energética deve tornar a demanda um pouco menor do que é agora. Se houver uma melhora no ambiente fiscal e político, isso pode ficar mais fácil. Financiamento subsidiado para transformar a frota mais ambientalmente sustentável é uma alternativa. A longo prazo, essa medida pode se reverter em uma situação favorável.

Que lição que a gente pode tirar desse choque atual de aumento do preço dos combustíveis?

Não vejo o controle interno de preços de combustíveis como sendo uma solução para evitar repasses maiores de custos energéticos. Por mais que tenhamos uma oferta de petróleo interna significativa, nossa capacidade de transformá-lo em produto final é limitada. O que pode nos ajudar é um mercado menos volátil no câmbio. Esse desalinhamento é fruto de alguns descontroles macroeconômicos – principalmente na questão fiscal –, políticos e da baixa produtividade da economia.

Esse longo período marcado por recessões e baixo crescimento que o país tem vivido há quase uma década pode afetar nossas possibilidades futuras de recuperação?

O Brasil deveria estar crescendo muito mais do que está, mas não investe, então a insegurança é muito grande. A capacidade de investimento do Estado caiu praticamente a zero. Se o próprio governo não investe, como vai convencer uma empresa privada estrangeira a investir alto no país em projetos de infraestrutura? O investimento público também é importante para dar essa segurança ao ambiente de negócios. Outra questão estrutural fundamental é o investimento em educação, que geraria melhoras em longo prazo. Ou seja, falta no Brasil tanto investimento em infraestrutura física quanto em social, e isso sempre dependeu e vai continuar dependendo muito da capacidade de investimento do governo. Assim, é preciso uma revisão do arcabouço fiscal do Estado e um pensamento estratégico um pouco mais focado para que esses investimentos destravem nosso potencial e possamos ocupar um espaço maior como potência regional.

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