Palavra do Presidente

Diesel é o combustível da economia*

A política de preços do diesel, adotada pela Petrobras em julho do ano passado, só trouxe prejuízos ao Brasil e aos brasileiros.

A paralisação de 11 dias, realizada por caminhoneiros autônomos neste final de maio, expôs de forma dramática e desnecessária os problemas que vinham se avolumando: oscilações constantes no preço do diesel, com aumento acumulado de 17,6% em menos de um ano, sufocaram o setor transportador e afetaram toda a economia nacional.

Basta lembrar que o transporte rodoviário é responsável pela movimentação de 61% das mercadorias e de mais de 90% das pessoas em todo o Brasil. Além disso, o diesel é o componente com maior peso no custo operacional do transporte de carga, variando entre 30% e 40%. 

Não é preciso muito esforço para entender os efeitos nefastos que a política inconstante de preços para o diesel, com reajustes praticamente diários, causou no custo do frete e, consequentemente, no preço dos alimentos, de insumos para a indústria e o agronegócio, nas exportações e em todos os outros setores da economia. 

O argumento da Petrobras para indexar o preço do diesel às flutuações do câmbio, seguindo os movimentos do mercado internacional, não se justifica e causa preocupação. 

No Brasil, o diesel é mais caro do que em países com perfil de desenvolvimento similar ao nosso, como é o caso da Rússia e do México. Em comparação com os Estados Unidos, país autossuficiente em petróleo e que tem uma renda média seis vezes maior que a brasileira, o diesel vendido aqui é 15% mais caro. 

Estranha o fato de o Brasil ser o único país autossuficiente em petróleo cuja empresa detentora do monopólio do setor estabeleça preços e, pior ainda, adote uma política de preços instável e dolarizada. É importante ressaltar que a Petrobras opera com grande parte de seus custos – folha de pagamento, insumos, fornecedores – precificados em reais. Então, por que submeter o mercado interno a uma política de preços dolarizada?  

Nada justifica essa estratégia notoriamente destrutiva e insensível. Nenhuma empresa do mundo, privada ou estatal, pode adotar uma estratégia de preços insensata e descolada da realidade dos seus consumidores e da economia na qual está inserida. Muito menos uma empresa que detém o monopólio de setor estratégico como o petróleo.

Outro fator agravante foi o momento que a Petrobras escolheu para adotar preços flutuantes para o diesel, ou seja, logo quando o Brasil vem lutando para retomar o crescimento econômico depois de uma longa e severa recessão. 

Não há dúvidas de que a política de preços do diesel impediu a rápida retomada do setor transportador. A Petrobras, nesse caso, foi um pé no freio já que o transporte é fundamental para a dinâmica de todo o setor produtivo, que vem lutando para voltar a crescer e gerar empregos.

A demissão de Pedro Parente, que, na presidência da Petrobras, implantou e insistiu nessa prática desastrosa, comprovou o erro e serviu de ensinamento para que esse tipo de estratégia não volte a ser adotado. 

Não se admite, com isso, que a Petrobras volte a ser instrumento de eventuais interesses políticos. Ao contrário, o que se espera é que a Petrobras adote políticas responsáveis, claras e previsíveis, transmitindo ao mercado a segurança necessária para que os consumidores e acionistas sintam confiança em sua gestão.

No caso do preço do diesel, é fundamental que haja transparência e previsibilidade para que o setor transportador tenha condição de planejar suas atividades, possa negociar preços em bases estáveis e realizáveis e, por fim, continue prestando serviços de qualidade à sociedade brasileira.  

A nova política de preços de combustíveis, que começa a ser debatida, deve considerar a necessidade de abertura do mercado a empresas internacionais, a autorização para que distribuidores e transportadores privados possam importar diesel mais barato, assim como os postos revendedores possam comprar diretamente dos produtores.

Um novo desenho institucional, mais moderno e aberto, deverá estimular o livre comércio e a concorrência para aumentar a eficiência econômica do setor e baratear o preço do diesel e dos demais combustíveis.


Clésio Andrade

Presidente da Confederação Nacional do Transporte

* Os artigos do presidente da CNT são publicados mensalmente na Revista CNT Transporte Atual​